9.1.13

[Resenha] Reparação - Ian McEwan


Título: Reparação
Título original: Atonement
Autor(a): Ian McEwan
País: Reino Unido - Inglaterra
Ano publicação: 2001
Editora: Companhia das letras
Páginas: 269


Quer comprar? Olhe aqui ou aqui para edição econômica!




(5/5)

Provavelmente este é o livro mais difícil de ser resenhado e não por características da sua escrita, mas pela profundidade a que nos carrega.
Desde que assisti as entrevistas de lançamento do filme Desejo e reparação baseado no romance Reparação de Ian McEwan, fiquei extremamente ansiosa para realizar a leitura. E esse momento se postergou pelo preço da obra, que foi inclusive adquirida por mim no meu segundo dia na Inglaterra (mas que até hoje eu não terminei de ler porque é em inglês).
Fico contente em dizer que o filme conseguiu realmente tornar real a minha imaginação ao ler essa história, conseguiu transmitir todas as maravilhas e dessabores sobre os quais agora escrevo.

Uma entrevista que Keira Knightley fala sobre os sentimentos da obra


Em dois quentes dias de verão de 1935 a família Tallis está para receber em sua casa os sobrinhos da Sra. Tallis e seu filho mais velho com um amigo.

O ambiente familiar nunca pareceu mais inóspito para Cecília Tallis, que ao retornar de Cambridge não consegue se ajustar a posição que antes ocupava na família.
Já para Briony, a empolgação de poder representar a peça escrita com toda sua imaginação parece estar ruindo com a complexidade de ajustar os outros as suas vontades. Com a complexidade de se compreender no espaço entre vida infantil e vida adulta.
A mente fértil de Briony presencia uma cena entre sua irmã mais velha e Robbie, o filho de uma empregada e protegido de seu pai, e cria um contexto fantasioso que poderá transformar a vida de todos, inclusive a sua para sempre num período em que a Segunda Guerra Mundial está para estourar.

----------------------------------------------------------------------------------------------

Como começar a tratar deste livro senão por sua escrita e uma ambientação impressionante?
O livro dividido em quatro partes é tanto um deleite de leitura quanto um aprendizado sobre como utilizar as palavras, sobre movimentos literários. É incrível!

(...) Ela havia sumido num mundo interior inacessível, e seus escritos eram apenas a superfície visível desse mundo, a casca protetora que não podia ser penetrada, nem mesmo por uma mãe amorosa - não, principalmente por uma mãe amorosa.
p. 87

Temos na primeira parte a introdução do crime de Briony, ou seja, da atitude que afetará a vida de todos.
Fica clara toda inquietação dos personagens. As narrações em terceira pessoa se alternam do ponto de vista de Cecília, Robbie Turner, Briony, Emily Tallis... Os tempos nem sempre são concomitantes gerando uma desconstrução do tempo na narrativa, não é a sequencia de acontecimentos que importa, mas como eles são relacionados por cada um dos personagens.
Embora não saibamos o que está para ocorrer fica claro que há algo errado, todos estão angustiados nesses dois dias de verão escaldantes. Mas, não é apenas a temperatura, há um clima no ar de tensão em cima do próprio sentimento que os personagens vivenciam no momento.

E então, Cecilia e Robbie dividem a cena do vaso, eles nem sabem bem porquê estão divergindo e o valioso vaso da família se parte e cai na fonte. Cecilia se despe e mergulha só de roupa íntima na fonte, diante dos olhos de Robbie sai toda molhada e raivosa.
Briony assiste a cena da janela e permite que sua mente viaje numa história que abarcará todos os fatos posteriores.
O capítulo em que Briony está prestes a presenciar a cena é um dos melhores capítulos já lidos na minha vida. Os pensamentos e divagações da menina que aproxima o dedo da face se permitindo criar universos paralelos de si mesma. É tão real, é tão complexo e eu fui incapaz de distanciar os pensamentos dela dos meus.

A segunda parte do livro acompanha Robbie, agora soldado Turner enquanto serve na França durante a Guerra. Enquanto o vemos sucumbir diante da esperança e do passado, ele nos traz com seus olhos o retrato da guerra que poucos vêem (lembrei muito de O festim dos corvos). As manchas na vida e na mente dos que vão à guerra ou daqueles os quais a guerra passa por eles.
A morte. O nada. O ato de ignorar aquilo que nos traz lágrimas aos olhos e o vômito à boca.

A terceira parte é um relato de Briony durante à guerra, como ela modificou sua vida numa tentativa de 'punir' e se penitenciar pelo mal que causou. Quando ela busca incessantemente um modo de reparar os danos que não reparáveis.

A quarta parte é o desfecho. É quando Briony encerra nos contando que rumos foram tomados e quais rumos ainda são pretensões.
Conto que o livro e o filme possuem diferentes versões desse final, porém com uma mesma proposta e que ambas me agradaram igualmente.

(...) Ele pronunciou as três palavras simples que nem toda a arte barata e toda má-fé do mundo conseguem trivializar. Ela as repetiu, com exatamente a mesma ênfase sutil no verbo, como se fosse a primeira pessoa a pronunciá-las na história. Ele não tinha crenças religiosas, porém era impossível não imaginar uma presença ou testemunha invisível ali, não acreditar que essas palavras pronunciadas em voz alta eram como assinaturas num contrato invisível.
p. 106

A história é fantástica, embora estejamos tristes e com raiva na maior parte do texto. O desfecho, nos fornece um momento brilhante.
Os personagens, como já disse antes, criados com a perfeição da realidade: fisicamente, psicologicamente. Eles se tornam tão íntimos nossos como nós mesmos.
A leitura, entretanto, não irá agradar a todos. Não há um objetivo de ser fluido e leve o texto. Ele é levemente rebuscado e retrata alguns movimentos literários explicados no próprio texto no decorrer das páginas.

Recomendo a todos! Acho que mesmo aos que não se agradarem no início, façam um esforço. Vale a pena!


----------------------------------------------------------------------------------------------


A edição que li foi esta com a capa de uma cena do filme.
A diagramação é simples e muito bem revisada e traduzida. Encontrei um único erro no livro todo, e este foi a falta de uma palavra que não fez perder o sentido.


 Duas ótimas resenhas do livro: Livros e bolinhos e Literalmente falando.


Gostaram do novo sistema de resenhas e de avaliação? Aliás, repararam que esse ano estou resenhando somente livros que considerei 5 estrelas?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
Minima Color Base por Layous Ceu Azul & Blogger Team